sábado, 28 de abril de 2012

Ensaio sobre as Periguetes


Periguetes: não há quem as defina, mas não há quem não as identifique. Elas estão em toda parte, em todas as classes sociais. De Norte a Sul, subindo e descendo [e também mexendo pros lados]. É um fenômeno que acontece nas melhores famílias.

Periguetes existem desde a Idade da Pedra Lascada. Eram aquelas mulheres nas quais não era necessário o australopithecus dar uma clavada na cabeça para consumar o coito. A australoperiguetis até cunhou o termo homo erectus para designar os tipos de homens que, inevitavelmente, caíam em suas armadilhas [geralmente aqueles com o cérebro significativamente menor do que o de um homo sapiens].

Mesmo sendo um fenômeno tão remoto, não existia um termo específico para designar essa entidade social, até que algum baiano, provavelmente sentado numa mesa de bar em alguma praia do Subúrbio Ferroviário em um fim de tarde com os camaradas, viu a moleca passar e comentou: “Na lábia dessa vagaba eu não caio mais. Isso aí é um perigo!”. O outro comentou com uma risada safada: “Eta, que perigo bom! Me leva, periguete!”. Risada geral e, tal qual o ser humano identificado pelo termo, o verbete “periguete” correu de boca em boca e é conhecido em todo o Brasil. A Bahia inventando moda.

Apesar de ter gasto um parágrafo inteiro para contar essa historinha verdadeira que eu inventei, acredito mesmo é que Maria Odete Brito de Miranda foi uma visionária ao cantar a Ode às Periguetes, bem antes do surgimento do termo. Quem não lembra ou não conhece o complexo refrão “Piri-piri-piri” não saberá elaborar ou compreender o trocadilho Piri-Gretchen [usem o Youtube para fins mais úteis, gente! Conheçam os ícones da cultura pop brasileira!].

O que são as periguetes? O que vestem? Do que se alimentam? Qual o seu habitat natural? Não esperem essas respostas no Globo Repórter. Vamos tentar entender por aqui mesmo, certo? Não sei definir as periguetes, mas vou dar pistas de como identificar uma. Se você é homem, experimente atualizar seu Facebook com a informação “Em um relacionamento sério”. Em três segundos uma periguete vai aparecer em seu mural e escrever, preferencial, mas não obrigatoriamente, em miguxês: “Linduu! Xodade gandona” [Tradução: Lindo, saudade grande]. É assim: elas sentem saudade de homens casados ou comprometidos em geral.

Ainda no contexto das redes sociais, as periguetes têm uma forma muito particular de usar essas ferramentas: postam fotos de 30 em 30 minutos, usando roupas mínimas, fazendo biquinho. Elas dão uma pausa no dia, escolhem uma roupa minúscula e/ou que fique bem colada no corpo, passam maquiagem à exaustão e correm para frente do espelho para fazerem aqueles hediondos autorretratos onde a câmera fotográfica aparece como coadjuvante. Suponho que periguetes não trabalhem ou não se importem com a imagem que fotografias como essa podem sugerir para os colegas de trabalho. Uma vez publicadas as 3.550 fotos com bundinha empinada, lábios [os de cima] em posição genital, decotes profundos e carinha de ingenuidade forçada [ou não] elas escrevem: “Genty! Curti pra eu? Tô concorrendu e precisu de seu votu para ser a Delícia Feicibuque da semana” [Traduzindo: Gente, curte para mim? Estou concorrendo e preciso do seu voto para ser a Delícia Facebook da semana]. Chove homo erectus, mesmo os comprometidos, nas opções curtir/compartilhar. A periguete agradece em êxtase.

Depois desse festival de testosterona em ebulição, vem a tempestade: esposas iradas, namoradas em lágrimas, ódio, ressentimento, cenário de crime passional. E a periguete tem a desfaçatez de publicar: “Não sei por que razão as mulheres comprometidas me odeiam tanto. Estou triste” [já traduzido, ok?]. Mais uma chuva de marmanjo para consolar a bandida, que consegue chegar ao extremo do cinismo e publicar: “Homens, me deixem em paz! Vão cuidar de suas namoradas ciumentas! Parem de me cutucar” [também já traduzido – risos]. Assim caminha a periguetagem. E por falar em caminha...

A periguete vai pra cama com quem ela quer e com uma rotatividade de dar inveja a uma “mariamadalena”. Elas não são prostitutas [essas acertam o preço às claras, agem como profissionais]. Suponho que periguetes sejam algum ponto mal resolvido entre a liberação sexual e o respeito ao próximo, porque seu objeto de desejo é, rotineiramente, homem comprometido. Talvez por um complexo de Alexandre Pires [“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”] ou pela possibilidade de ter apenas o lado, digamos, “lúdico” de um envolvimento homem/mulher. A realidade é que elas saem à caça de babacas que pagam seus ingressos em shows, bancam suas compras, compostas de muitas pulseiras barulhentas, maquiagem, máquinas fotográficas digitais e paninhos para tapar mamilos e “países baixos”. No que depender dessas criaturas, a indústria têxtil fica parada, afinal, elas não sentem frio.

Não se deve ignorar a origem da palavra “periguete”. Repitam comigo: Periguete vem de “perigo” e com perigo não se brinca. Elas vieram ao mundo para brincar, não têm compromisso com nada que esteja fora da lista de vontades sexuais e consumistas. Se elas soubessem o que é hedonismo, com certeza se valeriam desse argumento: “Sou hedonista”. Não quero dizer com isso que elas sejam burras. Como já falei, elas são um fenômeno que pode acontecer nas melhores famílias. Ser periguete é uma opção de vida e não uma condição imposta por fatores regionais, sexuais, econômicos ou o que quer que seja. Elas se alimentam de intrigas, dissimulação, vaidade. Gostam de ver o circo pegar fogo. Não, periguete não é a nova “galinha”. A menina-galinha gostava de ter muitos namorados e a periguete não quer isso. Quando elas anunciam “Estou carente, quero um amor” você pode traduzir: “Estou disponível para pegar um cara comprometido que pague minha cerveja”.

Para as meninas, um conselho de fim de texto: não briguem por causa de periguetes. É o paraíso para elas. Ignorem sem medo. Um homem que se rende a um apelo desses não merece sua atenção. Para os meninos, fica a orientação: nunca mais se esqueçam de ignorar frases inocentes do tipo “Sua namorada não gosta de mim. Tentei ser amiga dela, mas ela não quer. Ela é ciumenta?”. A menos que vocês queiram o trofeu “Otário Golden”, não se misturem com essa gentalha, como sabiamente dizia Dona Florinda.

20 comentários:

  1. KKKKKKKKKK. Me lembrou um texto do antropólogo Roberto Albergaria sobre os tipos do Carnaval baiano. Obviamente, que o estilo Patrícia de escrever é bem diferente. Daria uma excelente monografia. Amei... e morro de dar risada. Parabéns Patinha!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, menina!! Estou vingando as maldades que as "piris" fazem com minhas amigas! hahaha

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Bacana, Patrícia do Braille. Vou indicar a leitura do seu texto a amigos. Abr (carlos barbosa)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Carlos! Abraços letrados da amiga e leitora.

      Excluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Amei o texto Pat.Saudades!
    Beijo grande

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, menina! Saudade grande também! Beijos

      Excluir
  6. Adorei!
    Vou compartilhar, ok?
    Beijo, beijo!

    ResponderExcluir
  7. Adorei! Vou compartilhar, ok?
    Beijo, beijo!

    ResponderExcluir
  8. Este texto é a sua cara... Não que você seja piriguete, mas tem um quê de sapeca como só você sabe expressar!

    ResponderExcluir
  9. Se você fosse uma peri ia ficar igualzinha a da figura.

    ResponderExcluir
  10. Genteeee...hahaha. A-M-E-I tudo que vc escreveu.
    Ri muito aqui..

    Muito original.

    =*

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada! Se você deu um pouquinho de risada, meu texto já valeu. Beijos!

      Excluir
  11. Patrícia Braille, parabéns pelo texto, muito bom. Mas, gostaria de entender melhor onde ou como concluiu que piriguete vem do trocadilho PiriGretchen. É a terceira pessoa que encontro que faz esta referencia, mas, as outras não souberam explicar como chegaram a esta conclusão. ficarei feliz se vc pudesse explicar ou indicar onde procurar.obrigado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Professor, eu inventei o trocadilho para usar neste texto. É uma ironia, só pra fazer rir. Obrigada pelo comentário!

      Excluir
  12. Patrícia Braille, achei seu texto muito bom, esta um verdadeiro ensaio no sentido técnico da palavra. Perfeito. Percebi que vc faz uma referencia de trocadilho com a ideia de piriguete associada a PiriGretchen, o que já é a terceira pessoa que faz esta associação, porém, não souberam explicar a origem ou como chegaram a esta conclusão. Você chegou a esta conclusão como em que fonte ou ponto que leu ou pesquisou. Ficarei muito feliz com suas orientações para fundamentar este ponto da origem da piriguete. obrigado.

    ResponderExcluir

Comente! É de graça! =]